domingo, 8 de agosto de 2010

Pensamentos inquietos


"Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado." Caio Fernando Abreu.

Refletindo sobre essa quote, fiquei pensando em uma incógnita que se instaurou em minha cabeça recentemente. Se o mestre de fato tem razão, o que deveríamos fazer quando encontramos algo ou alguém interessantíssimo, mas improvável? Devemos simplesmente deixar passar?

Aqui estou, estagnada, inerte e parcialmente sem grandes expectativas. Assim sendo, distraída e sem esperar absolutamente nada. E é nesse estado de espírito que as surpresas tendem a aparecer, certo? Errado? Enfim, a minha resposta é tão incerta quanto à própria pergunta: nem certo nem errado, relativo.

Há momentos em que mesmo não estando distraídos, isto é, desesperados à procura de algo ou alguém, somos surpreendidos pelo tão misterioso destino. E por destino entenda-se inexplicável coincidência. No entanto, o grande clichê que é reiterado pelo fodalhão Caio Fernando Abreu prega, em suma, que só quando estamos com o foda-se ligado que as boas oportunidades surgem. Eu acho isso uma babaquice reconfortante. Tal como a religião, assim posso dizer.

A grande verdade, a meu ver, é: Toda babaquice reconfortante conquista, então quase que instantaneamente fazem sucesso e se transformam em verdades absolutas. É o que, feliz ou infelizmente, ocorreu com essa quote.

Basicamente todos os clichês são grandes mentiras tranqüilizadoras, por isso ficamos tão romanticamente apegados a eles, pois, estando o nosso universo pessoal um caos, são os clichês os responsáveis por nos manter ilusoriamente sãos. E como não querer ter um pouco de paz em meio à guerra particular?

Voltando ao que me trouxe aqui hoje: Qual posicionamento tomar quando somos surpreendidos por uma maçã de Eva? O correto seria ceder à curiosidade, mordendo a maçã a fim de sentir seu proibido sabor? Ou não, de modo que a razão/moral deveria impedir essa fase de breve luxúria e curiosidade, agindo da maneira "correta", ou seja, rejeitando o prazer possivelmente efêmero e improvável?

O que eu, Isadora, irei saber... Dizem por aí que aos dezoito anos estamos sujeitos a errar bastante, praticamente incessantemente. Contudo, isso pode ser tido como um clichê, sendo, então, mais uma mentira tranqüilizadora? Porque se formos parar para analisar essa ideia cambriana, concluiremos que ela foi passada de geração a geração como justificativa para as burrices cometidas pelos adolescentes de todo o mundo.

Sou completamente contra essa ideia de que por sermos adolescentes temos álibi para sermos inconsequentes. Os hormônios não devem tomar o espaço da razão a todo santo momento. Não é porque estamos na tal da flor da idade que temos que ser porras-loucas sedentos por prazer. Se fosse assim, não haveria grandes diferenças entre nós e o restante dos mamíferos.

Nascer, crescer, atingir maturidade sexual, procriar e morrer. É ESSE o ciclo banal a que devemos nos sujeitar? Obviamente, não. Nós temos um elemento X fundamental que o restante dos mamíferos não tem: Consciência, razão, bom senso ou o que você quiser entender como possibilidade de reflexão.

Desse modo, ser adolescente não implica em ser um mero mamífero oco. Para alguns, vale salientar, isso pode ser válido, mas ter isso como uma verdade incontestável é se acomodar nesse clichê que reduz a nós, jovens adolescentes, a crianças com muitos hormônios sexuais e pouca capacidade de reflexão.

É a partir desse tão comentado por mim clichê que emerge o notório estereótipo do adolescente: Pessoa movida por vontades efêmeras, sendo elas geralmente burras, além de ser inconsequente, barulhento e nunca, NUNCA ter razão em nada. Assim como o machismo e o racismo, essa visão reducionista e preconceituosa acerca dos jovens provoca em mim uma sensação de raiva e desgosto.

Bom, queridos leitores e árduos críticos, eu procuro fazer a minha parte, adotando uma postura interessante não só para mim, mas para o mundo em que me meteram sem pedir qualquer consentimento. Vim pra cá não sei pra quê, mas já que vim que não seja em vão. Há quem diga que sou uma eterna idealista, uma sonhadora, inclusive acusam-me, erroneamente, de usar essa maneira "diferente" de refletir para autopromoção (eternas interrogações pro pessoal que pensa assim), mas não acredito que pensar de maneira diferente da escolhida, consciente ou inconscientemente, pela grande maioria das pessoas seja idealizar. Quando a maneira que penso tem consistência, ela passa a ser tida como realista.

Creio que se não nos propormos a pensar o mundo da nossa maneira, seremos meros fantoches de outro alguém que provavelmente usa seu cérebro para algum ideal, seja ele belo ou não. Normalmente, quem usa sua sabedoria para manipular semelhantes como fantoches não tem lá intenções muito altruístas.

Abra os olhos, os ouvidos, a boca, mas não fique imóvel como estátua, ou dançando a música de outro alguém.

Um beijo e um abraço, Isadora, atualmente insone e com muita dor de cabeça.

Um comentário:

  1. Clichês são, assim como você tão bem falou, babaquices reconfortantes se transformam em verdades absolutas. Ou melhor dizendo, verdades reconfortantes se transformam em babaquices absolutas.
    É aquela história de você contar uma mentira tantas vezes que em um certo momento, você acaba acreditando que aquilo passa a se tornar verdade.
    É impressionante como as pessoas julgam tudo baseados nesses clichês e nas idéias que nos foram passadas, sem nem contestar se aquilo é válido ou não. Perdemos com o passar dos anos a sagacidade de perguntar, de pensar. Perdemos a única coisa que nos diferenciava dos animais, a consciência. (http://impressionalise.blogspot.com/2009/03/animal-do-homem.html#comments) dá uma olhada neste texto depois.

    Ah, adorei o blog, visitarei com maior frequência.

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