Há um novo rótulo no que se refere às mulheres e ao papel que ocupam nos relacionamentos em que se inserem. Primeiramente, cumpre dizer que tudo que diz respeito às relações interpessoais, sobremaneira o que envolve romance, é deveras complexo. E haja paciência e força de vontade para lidar com as inúmeras intempéries que surgem no desenvolvimento de uma relação, independentemente do aprofundamento de sentimentos manifestado.
Venho hoje discorrer acerca de um papel muito comum, mas que não recebe o apreço devido nas grandes obras de romance, sejam livros ou filmes: o de musa inspiradora.
Uma musa inspiradora é aquela mulher fascinante, envolvente, especial de maneira que estar com ela não é como estar com as demais. É diferente, novo, excitante, porque ela é diferente, tem um quê a mais; com ela as coisas parecem fluir, fazem sentido; em sua companhia, as coisas são mais belas, mais reais, você se sente mais homem, mais capaz, e até mais interessante, por tabela. Seu universo combina com o dela, e por um momento ela é a eleita...Por um breve momento.
No entanto, a musa está fadada a apenas encantar, ainda que exista verdadeira mágica nesse encantamento, sozinho ele se esvai, se perde, acaba. Em síntese, a musa inspiradora raramente é promovida ao papel de escolhida, pois a musa é fase, representa um momento, aquele efêmero instante que se precisa mais do que nunca de um pouco de luz, de risos fáceis, de sexualidade à flor da pele e uma dosagem de empolgação.
A musa é usada e abusada, ainda que durante o processo seja intensamente amada e, por que não, considerada? Contudo, reitero: jamais será a escolhida, eleita ao posto de exclusiva companheira, namorada, esposa, ou o que quer que seja.
Um clássico exemplo de musa inspiradora é a sedutora Alice, do genial e imperdível "Closer - Perto Demais", um filme, diga-se de passagem, necessário, para não dizer mais. Ao longo do filme, nota-se um quarteto amoroso, no qual Alice protagoniza como musa do personagem de Jude Law, um jornalista mal sucedido e sem grandes aspirações, que a partir do momento em que fita seus olhos nela, encanta-se, passando a usar de sua vida e personalidade como material para seu livro e, obviamente, para reafirmar-se enquanto homem.
Ela o fazia se sentir especial, então assim ele construiu certa dependência do relacionamento construído por ambos. Até que surgisse Anna, a fotógrafa, que se torna objeto de seu afeto obsessivo, até o momento em que é promovida ao papel de escolhida, no decorrer do filme.
E Alice?
Serviu como musa para depois ser trocada, dispensada, eliminada da equação...Até o momento em que ele precisasse de uma nova dosagem de inspiração. E, assim como costuma acontecer na realidade, a musa sucumbe à tentação, dando ao homem uma nova oportunidade, até que ela mesma se canse e dê um glorioso pé na bunda dele. Oh, the blower's daughter.
Outro exemplo de caso clássico de musa inspiradora retratado no cinema é a Penny Lane, do épico "Quase Famosos". O brilhante guitarrista foi mais uma vítima de seus encantos, em razão do brilho sedutor que ela emanou por sua própria natureza cativante e envolvente...Porém, já havia outra eleita: sua noiva oficial, com a qual se relacionava paralelamente ao romance com a maior das band-aids da época (chamá-la de groupie seria ofensivo a todo bom entendedor e espectador desse eletrizante longa).
Ela o inspirava a compor, a vibrar com as conquistas da banda, a sentir-se mais homem, a viver as mais vibrantes histórias. Com ela, ele alcançou a plenitude máxima em uma relação a dois. No entanto, ela não foi a escolhida, posto que a eleita havia sido outra. Ainda que a mágica estivesse ao seu lado, como aliada, a estabilidade e segurança residiam ao lado da noivinha sem graça de sua cidade natal. Vale salientar que o mesmo desfecho se observa aqui: ele a procura com o objetivo de tê-la consigo outra vez, mas ela o rejeita, cansou-se do posto de musa descartável.
Outra musa inspiradora do cinema por quem nutro especial afeto, ademais, é a sexual e irreverente Tiffany, de "Silver Linings Playbook", papel que rendeu a Jennifer Lawrence seu primeiro Oscar. Neste filme, sua personagem é uma ex-nifomaníaca viúva com alma de artista e sinceridade afiada, que, em certo momento, cruza o caminho do personagem de Bradley Cooper, um bipolar sofrendo com dor de cotovelo após ter flagrado sua esposa com outro no banheiro de sua casa, enquanto transavam ao som da música que havia tocado no casamento deles. Após o flagrante, num surto típico, parte para a agressão desmedida e acaba sendo internado numa clínica.
No processo de recuperação, já fora da clínica, conhece Tiffany, com quem divide muito em comum, logo construindo uma insólita amizade marcada por momentos de patadas e amadurecimento mútuo. Ela o ajuda a sentir-se normal de novo, a restabelecer sua estima por si próprio e o respeito frente à família e ex mulher. Há uma inequívoca tensão sexual gritantemente podada por ele e, num primeiro momento, instigada por ela, que nos deixa hipnotizados à espera pelo momento em que ambos se entregarão aos desejos da pele e da alma.
Os dois sentem o mesmo vazio dentro de seus corações, além de serem igualmente deslocados na sociedade. Assim, aproximam-se, usam um ao outro para superar as fortes dores advindas de amores pretéritos. O que se vê é a musa inspiradora apaixonar-se, como de praxe, sozinha e sofrer ao perceber que não será eleita...Até ele assumir para si próprio que também gosta dela. Em suma, muitas coisas acontecem e um não tão surpreendente desfecho pode então ser visualizado.
Portanto, a grande moral que pretendo passar é essa: ainda que as grandes historias de amor costumem envolver um casal que, apesar de todas as dificuldades interpostas, termina junto, há também aqueles romances que não necessariamente possuem um desfecho certo, mas que são regados com tanto ou mais afeto e por isso merecem nossa reflexão no presente momento.
Dedico esse texto às musas inspiradoras da vida real. Acredito que toda mulher seja, tenha sido ou venha a ser a musa inspiradora de um cara ainda, e a elas dedico minhas palavras e meu sincero apreço.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
sábado, 16 de março de 2013
"Teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer"
Pessoas são escolhidas por nós para fazerem parte de nossas vidas mediante pura conveniência. Não existe ninguém certo para alguém, cada um é conveniente em certo momento. Uma vez expirado o prazo de conveniência, descarta-se a pessoa da vida feito um par de meias velhas. Culturalmente, somos induzidos a romantizar as relações, apegando-se, desse modo, à ideia de que existe uma pessoa certa para cada um de nós por aí e que um dia iremos ser vítimas da feliz coincidência do encontro, vivendo felizes para sempre. Ledo engano; porém, uma doce e bela ilusão.
No decorrer de nossas vidas, estamos sujeitos a conhecer e possivelmente nos relacionarmos com um número imensurável de pessoas. Algumas irão nos cativar, farão com que nos apaixonemos irrefreavelmente, outras serão meros objetos dos nossos efêmeros desejos carnais e outras conquistarão de nós simples coleguismo, aquela básica civilidade que reservamos às pessoas insignificantes. O que quero dizer com isso tudo é que: pessoas chegam e saem de nossas vidas sem pedir permissão, de maneira tal que nos foge ao controle. Quando se misturam sentimentos então, danou-se. A pessoa irá abalar com suas estruturas em maior ou menor intensidade, a depender da profundidade do relacionamento vivenciado.
No começo tudo parecem flores, o que nos leva a cair no tendencioso poço da romantização. Ainda que alguns de nós lutemos bravamente contra essa força cultural, uma parte ínfima de nós inevitavelmente já se encontra lá, ainda que argumentemos no sentido contrário. A grande verdade é que todos estamos sós e a ideia de haver um chinelo velho para nossos pés cansados é sedutora, atraente, nos puxa como uma força gravitacional em algum momento de nossas vidas. E é aí que eu queria chegar: no MOMENTO, timing, ou o que preferir chamar.
Distraímo-nos da solidão das mais diversas maneiras possíveis, até que em algum momento ela nos assombra... Tentamos ignorá-la, mas ela ainda está lá, causando-nos inevitáveis arrepios. Por vezes somos jogados às sombras da solidão constatada pelas nossas famílias mesmo, que se apegam veementemente à ideia de que estar sem alguém é sinônimo de infelicidade. O peso da carência afetiva nos leva (inconscientemente) a crer que a pessoa que surgir e (parecer) preencher certos requisitos representará a misericordiosa solução.
Será CONVENIENTE tê-la por perto, devido a inúmeras razões que todos vocês bem sabem quais, como por exemplo: ter alguém com quem conversar e dividir as angústias, uma pessoa que nos incentive a atingir o máximo de nós, sexo frequente, companhia para programas como cinema, jantar, filminhos em casa em dia de domingo, etc. Ainda que estar em uma relação monogâmica implique em perdas/contras, em certo momento gostamos de nos apegar aos prós, às vantagens decorrentes.
Argumentar sobre esta questão com argumentos racionais não quer dizer que os sentimentos sejam uma invenção, não é isso que estou defendendo. A questão é: a abertura para que os sentimentos nasçam vem justamente da conveniência do momento adequado. A meu ver, o amor não é mera aleatoriedade tal como os românticos de plantão defendem. Aquela baboseira de amor à primeira vista não passa de um conto de fadas, isto é, papo para criança dormir. Atração, empatia, química, paixão, esses sim podem surgir aleatoriamente, pois como já disse e reitero, fogem ao nosso controle. Porém, o desenvolvimento destes para algo profundo não decorre da magia fictícia romantizada. Mais realidade e menos “Crepúsculo”, por favor, juventude. São construções trabalhadas com base na conveniência (já estou repetitiva, mas é isso aí, haha), no forte desejo momentâneo de se ter alguém, e uma vez que se crê ter encontrado este alguém, inicia-se o processo de desenvolvimento da relação e, por conseguinte (em alguns casos), nasce um sentimento profundo, verdadeiro, intenso, por vezes pode-se chamar de amor, por que não?
Desenvolver a relação implica em conhecer a fundo o outro, aprender a lidar com as diferenças psicológicas, culturais, pessoais advindas da criação, políticas, enfim, aprender a respeitar e gostar do outro a despeito das suas peculiaridades, de maneira a conviver em um processo evolutivo de troca e aprendizado, até chegar ao crítico ponto em que a felicidade não é suficiente... Situação em que a pessoa deixa de atender aos anseios pessoais, deixa de ser CONVENIENTE. Aí, meu amigo, hasta la vista. “I’ll see you in another life when we’re both cats.”
Em síntese, por mais que se nutram sentimentos verdadeiros pela pessoa, em certo ponto ela deixará de ter a relevância que costumava ter, pois de alguma maneira o inesperado ocorreu: você não mais PRECISA dela. Vale salientar que infelizmente não se visualiza com frequência a simultaneidade desse desapego, que em raríssimas vezes é mútuo. O lado fraco da moeda, por assim dizer, a pessoa que ainda acredita na relação vive aquela genial expressão do Cazuza: “Teu amor é uma mentira que a minha vaidade quer”. Lidar com a rejeição é uma das mais infelizes lições que só a vida nos ensina, não adianta ler, escutar conselhos, ouvir músicas a respeito... Simplesmente dói, em todos os âmbitos, seja no afetivo ou no da vaidade. Contudo, estudos comprovam que ninguém nunca morreu de amor tampouco pela falta dele.
A vida continua de maneira cíclica, estamos expostos ao incontrolável risco de nos apaixonarmos novamente, rejeitarmos, não sentirmos nada de especial e simplesmente vivermos a excitação do momento, gostarmos daquele alguém que simplesmente não se importa conosco, enfim, de nos surpreendermos com o outro a cada instante. Não quero dizer que não acredito em relações que perduram, mas a questão é: o que faz com que elas durem apesar de todos os dissabores é apenas um fator... Aquele que tanto reiterei ao longo do texto de forma repetitiva e chata: a CONVENIÊNCIA. Mas encontros e desencontros acontecem a todos os momentos, a beleza de se viver e não saber o dia de amanhã. Portanto, viva, porque um dia essa brincadeira acaba e você não vai querer morrer amargurado, vai?
Isadora Cardoso.
Seu desinteresse me interessa
Há alguns anos pude perceber que, no que se refere aos relacionamentos entre as pessoas, é possível notar uma série de padrões comportamentais que se reiteram continuamente nas vidas de todos aqueles que se propõe, ainda que de maneira superficial, a viver um “romance”. Tenho pessoal afeição pelo tema relacionamentos ainda que esteja relativamente distante de compreender ou falar com propriedade destes, haja vista ter meros vinte e um anos de existência terrena. Não obstante isso, aventuro-me observando o modo como as pessoas e eu mesma nos relacionamos e o que se repete, como se estivesse implantado no famoso “inconsciente coletivo”. A tendência comportamental que pretendo discorrer a respeito é o fato de que o desinteresse de um é um dos fatores que mais parece despertar interesse no outro no delicado campo da conquista.
Todos já tivemos uma determinada pessoa em nossas vidas que por mais que nos esforçássemos em demonstrar todo interesse do mundo, expondo as nossas melhores qualidades, selecionando assuntos que gerariam as conversas mais produtivas e encantadoras, simplesmente parece não produzir reação alguma no alvo em questão, uma vez que este se mostra indiferente ou até mesmo desinteressado, monossilábico. Dói. Dá raiva. Desgasta. Irrita. Deixa-nos com uma incógnita em mente: “O que será que fiz de errado? Como consertar?”. Possivelmente o alvo não seja lá o melhor partido do mercado (geralmente não é), mas pelo simples fato de ter esnobado, torna-se o último dos moicanos, a pessoa mais interessante da face da Terra, um desafio pessoal, uma conquista imprescindível.
Acredito que a ideia de não obtermos êxito na tentativa de conquistar alguém tem um efeito negativo muitas vezes avassalador, pois toca na ferida da vaidade, do ego, onde mais dói. O filme “A Estranha Perfeita” traz em seu roteiro uma frase genial que se aplica a esta questão em particular: “Stroke a man’s dick, you get him for one night. Stroke a man’s ego you get him for life.” Traduzindo a parte que nos é interessante: Derrube o ego de um homem e você o terá. Mas a ideia se aplica igualmente às mulheres, valendo reiterar que sempre na específica fase de conquista, tanto para os homens quanto para as mulheres.
De alguma maneira inacreditavelmente idiota e mais comum do que possa parecer, afeiçoamo-nos de forma quase obsessiva por aquele que nos desdenha ou simplesmente não dá reciprocidade ao irrefreável desejo pelo romance. Há também a hipótese em que a pessoa corresponde ao interesse pelo romance, mas não na mesma proporção advinda da expectativa idealizada em mente. Em todas essas situações, ferrou-se: nasce a paixão, a ideologia por trás de todas as justificativas que nós damos aos amigos e a nós mesmos para tentar explicar a simples rejeição e a maneira como ela pode ser contornada. Não conheço uma única alma viva que não tenha vivenciado a situação Tom/Summer do sensacional “(500) Days of Summer”.
A verdade nua e crua é: as pessoas jamais irão corresponder inteiramente às expectativas que nelas depositamos, mas ainda assim, mesmo tendo ciência disso, foge ao nosso controle não criá-las, de maneira a deixar as coisas fluírem sem pensar no que pode vir a acontecer caso a paquera se desenvolva para algo sério em um futuro distante. Algumas pessoas conseguem não se deixar dominar pela angústia oriunda da expectativa, porém, negar sua presença é mentir para si mesmo. O ser humano é racional, de modo que pensar, refletir e muitas vezes viajar na maionese é inerente à espécie.
Contudo, o que estou querendo abordar é a seguinte questão: alguém não demonstrar interesse deixa-nos fulos por dentro, fazendo com que um inevitável questionamento acerca do nosso próprio valor se instaure, de maneira que acabamos nos apegando à ideia de conquistar a pessoa a fim de silenciar esta voz de auto reprovação que passa a nos assombrar. Talvez conquistando essa pessoa que não está nem um pouco afim seja possível manter intacta a dignidade, a estima por si próprio. Portanto, ouso afirmar que os sentimentos que decorrem destas situações específicas não são belos, românticos e dignos de serem almejados. É por esta simples razão que a paixão decorrente desses flertes em que um polo demonstra extremo desinteresse e o outro, extrema devoção, vão por terra uma vez que o atrativo principal se perde: a pessoa desinteressada torna-se interessada. Porque meu bem, apenas o seu desinteresse interessa.

quinta-feira, 24 de maio de 2012
Poema à boca fechada, de José Saramago.
"Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo."
Loucura é a saída de emergência.
"Lembrar é perigoso... eu vejo o passado como um lugar cheio de ansiedade. O 'pretérito imperfeito', como você chamaria. Ah, ah, ah, ah! As memórias são traiçoeiras! Num momento, você está perdido num carnaval de prazeres, com o aroma da infância, os neons da puberdade... No outro, elas te levam a lugares onde a escuridão e o frio trazem à tona coisas que você gostaria de esquecer! As memórias podem ser vis, repulsivas, brutais... como crianças. Ah, ah, ah! Mas podemos viver sem elas? A razão se sustenta nelas. Não encarar as memórias é o mesmo que negar a razão! Mas e daí? Quem nos obriga a ser racionais? Não há cláusula de sanidade. Assim, quando você estiver dentro de um desagradável trem de recordações, seguindo pra lugares do seu passado onde o riso é insuportável... lembre-se da loucura. Loucura é a saída de emergência! Você só precisa dar um passo pra trás e fechar a porta com todas aquelas coisas horríveis que aconteceram... presas lá dentro... pra sempre." Coringa.
Para quem me odeia, por Fernanda Young.
"Para quem me odeia,
Eu te amo. E não seria metade do que sou sem você, juro.
É seu ódio profundo que me dá forças para continuar em frente, exatamente da minha maneira.
Prometa que nunca vai deixar de me odiar ou não sei se a vida continuaria tendo sentido para mim.
Eu vagaria pelas ruas insegura, sem saber o que fiz de tão errado.
Se alguém como você não me odeia, é porque, no mínimo, não estou me expressando direito.
Sei que você vive falando de mim por aí sempre que tem oportunidade, e esse tipo de propaganda boca a boca não tem preço.Ainda mais quando é enfática como a sua - todos ficam interessados em conhecer uma pessoa que é assim, tão o oposto de você. E convenhamos: não existe elogio maior do que ser odiado pelos odientos, pelos mais odiosos motivos.
Então, ser execrada por você funciona como um desses exames médicos mais graves, em que "negativo" significa o melhor resultado possível. Olha, a minha gratidão não tem limites, pois sei que você poderia muito bem estar fazendo outras coisas em vez de me odiar - cuidando da sua própria vida, dedicando-se mais ao seu trabalho, estudando um pouco. Mas não: você prefere gastar seu precioso tempo me detestando. Não sei nem se sou merecedora de tamanha consideração. Bom, como você deve ter percebido, esta é uma carta de amor. E, já que toda boa carta de amor termina cheia de promessas, eis as minhas: Prometo nunca te decepcionar fazendo algo de que você goste. Ao contrário, estou caprichando para realizar coisas que deverão te deixar ainda mais nervoso comigo. Prometo não mudar, principalmente nos detalhes que você mais detesta. Sem esquecer de sempre tentar descobrir novos jeitos de te deixar irritado.
Prometo jamais te responder à altura quando você for, eventualmente, grosseiro comigo, ao verbalizar tão imenso ódio. Pois sei que isso te faria ficar feliz com uma atitude minha, sendo uma ameaça para o sentimento tão puro que você me dedica. Prometo, por último, que, se algum dia, numa dessas voltas que a vida dá, você deixar de me odiar sem motivo, mesmo assim continuarei te amando. Porque eu não sou daquelas que esquece de quem contribuiu para seu sucesso.
Pena que você não esteja me vendo neste momento, inclusive, pois veria o meu sincero sorrisinho agradecido - e me odiaria ainda mais.
Com amor, da sua eterna,
Fernanda Young."
A confiança superficial é padrão nos relacionamentos
A falta de liberdade que o namoro tradicional traz é uma merda. Não sou capaz de encontrar outro adjetivo que qualifique melhor do que este: Merda. Todas as decisões devem ser tomadas de comum acordo, de modo que as escolhas que cada um terá de fazer a partir do momento que se inseriu na relação monogâmica deverão ser dialogadas e meticulosamente negociadas. Quando me refiro a namoro tradicional, quero dizer relação monogâmica entre duas pessoas assumida publicamente tendo como pressuposto básico, e basilar, a fidelidade de um para com o outro.
Tenho o hábito de observar o modo como as pessoas ao meu redor se relacionam para tentar entender um pouco mais do funcionamento da nossa espécie, pois é inegável a existência de padrões e tendências perceptíveis na maneira como o homem se relaciona com o próximo. Ao realizar esse exercício voyeurístico, consigo prever certas condutas nas pessoas e sinto um verdadeiro sentimento de onipotência. Não, eu não sou um gênio nas relações interpessoais (estou, aliás, muito distante disso), mas proponham-se a fazer uma observação mais aguçada das pessoas ao seu redor e entenderão o que eu sinto. Nós, seres humanos, somos dotados de uma previsibilidade enorme. Até mesmo pessoas imprevisíveis são previsíveis na sua imprevisibilidade. Deveriam criar uma teoria encima disso. Mas não fujamos do tema...
Hoje, particularmente, ao conversar com uma pessoa querida que se encontra, como o Facebook rotula, em um “relacionamento sério”, cheguei à máxima de que a confiança superficial é padrão nos relacionamentos. Alguns poderão pensar: “O que essa retardada está querendo dizer com isso?”, então vou simplificar: Criemos a seguinte mini narrativa: (A), do sexo feminino, possui um namoro tradicional com (B), do sexo masculino; (C), amigo solteiro de (B) o convida para passar o Carnaval em Ubatuba (por exemplo). Opções:
1) (B) aceita com empolgação o convite e simplesmente avisa sua namorada (A) que irá viajar para passar o carnaval com (C) em Ubatuba, que aceita de bom grado a decisão tomada unilateralmente por (B);
2) (B), já com certo desânimo, avisa a (C) que precisará notificar (A) da tentadora proposta e ver se ela “libera” sua viagem.
Todos sabem o que acontece em um NAMORO PADRÃO, como já descrevi, não é preciso abstrair muito nesse exemplo fictício para constatar que a segunda opção é a que mais comumente se manifesta. E é isso que me “incomoda”. O motivo pelo qual (A) muito provavelmente vetaria a viagem de (B) com seu amigo (C) é porque não confia nele, portanto, tem-se aí a confiança superficial padrão. Entenderam? Obviamente, ela não diria isso, divagaria sobre as inúmeras razões pelas quais seria uma má ideia ele viajar sem ela para o Carnaval com um amigo solteiro. Porém, a única razão é a falta de confiança na fidelidade do namorado, que estaria exposto a inúmeras tentações.
Esse fenômeno da confiança superficial padrão já me acometeu, sim, não vou negar. O “incômodo” que sinto com sua frequente manifestação é da observadora, não da pessoa inserida na relação monogâmica tradicional. É muito difícil confiar no outro, mas acho que uma vez essa confiança conquistada e comprovada sua força, deve ser cega, caso contrário, a relação irá se sustentar em uma mentira, em uma superficialidade, em uma hipocrisia. Os membros do casal dizem confiar um no outro, mas vetam esse tipo de situação explicitada acima. De duas possibilidades, uma: a) As pessoas não são confiáveis, no sentido de que quando se encontram tentadas e/ou direcionadas a cometer algo pecaminoso, muito provavelmente o cometerão; ou b) Uma vez conquistada a confiança no outro dentro da relação, ela deve ser presumida sempre. Ainda que (B) se encontre tentado a trair (A) em Ubatuba, ela deve presumir que ele será fiel e esperar por isso, não o contrário.
Esse debate faz com que eu me recorde da obra-prima do cinema, e um dos meus filmes preferidos, “O Advogado do Diabo”. Particularmente de uma frase dita pelo personagem do lendário Al Pacino, diga-se de passagem, em um de seus melhores momentos na carreira: “Freedom, baby... is never having to say you're sorry.”. Traduzindo: Liberdade é nunca ter que pedir perdão. Em suma, estar em um relacionamento implica em abdicar da liberdade pessoal de errar, pois, só pedimos perdão ao outro quando erramos. Dessa maneira, a liberdade dentro dos relacionamentos já estaria fadada ao fracasso, pois é inerente ao ser humano errar e decepcionar o outro (não necessariamente pela traição, que fique bem claro).
No entanto, é justamente aí que entra o paradoxo: Ao se inserir em um namoro padrão, você abdica da sua liberdade, mas em troca de confiança, porém esta existe apenas superficialmente. Logo, em um relacionamento, têm-se apenas expectativas e não certezas. Você nunca irá saber ao certo se o outro irá ser fiel e se o relacionamento terá um futuro, você simplesmente mergulhará de corpo e alma, apegando-se à expectativa de que isso se materialize na realidade.
Existe algo mais romântico do que isso? É por isso que sou uma eterna romântica, pois o romantismo é comprovado racionalmente.
A todos vocês que se encontram em um “relacionamento sério” com alguém, um beijo carinhoso.
Assinar:
Postagens (Atom)




